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terça-feira, 15 de setembro de 2009

Paraíso Perdido





Escrito inspirado em "Paradise Lost", de John Milton

I – A Punição

“Cortem as asas dele!” – ordenou o carrasco.
“As asas com as quais uma vez varou céus –
Ah! Não mais, nunca mais!” – falou tomado de asco
Que escorria da pele e enchia o ar de fel
“E joguem-no por fim, sem asas, do penhasco!”

“Não deixem pluma alguma em tão pérfido réu.
Talhem todas as seis! Seis é sua medida,
Seis o seu julgamento e seis o seu laurel!
Que levará consigo até o fim da vida
E será para sempre o seu algoz cruel.”

Das seis asas privado, o sangue da ferida
Sobre seu corpo nu vertia fogo ardente.
Arrastado ele foi para sua caída
Posto à beira do abismo a contemplar ciente
A sina a si negada e assim sempre temida

“Vê, pela última vez, esta orbe reluzente
Que um dia foi teu lar, tomou teu desamparo –
Ah! Não mais, nunca mais!” – bradou a voz demente
Ao prender os grilhões sem um grande preparo:
“Teu crime a ti atado em teu curso cadente!”

“Não mais terás visão alguma do céu claro
E do brilho estelar – somente escuridão!
Suportarás em falta o anelo que lhe é caro –
Com trevas sobre ti, sem sombra de perdão,
Terás apenas dor em sofrimento raro!”

II – A Réplica

De frente para o abismo enxugou sua face
Dessas gotas de sangue e ódio que o marcavam
Sem mais ter asas que o antigo céu lembrasse
Sem mais visão do céu nos olhos que buscavam
Eis o fim, derradeiro, eis seu fim em seu ápice

"Se seis foi meu início, os seios que tocavam
Seis há de ser também meu fim ao precipício
Seis hão de ser, porém, as pragas aos que ficam!"
Com a língua ferina, aos seus no sacrifício
Feriu com a palavra aqueles que o cercavam

Sob o cerúleo céu, sobre sombra de vício
“Levanta, obscuro véu – diz: de onde tu vieste?
Quando o fim começou? No adorável início?
No orgulho sem perdão? Vê o que tu fizeste!”
As palavras sem cor gritavam seu auspício

“Não respondes, maldito! Oferece-me um teste?
Sou de destino escrito? Ou fiz própria ruína?
De nada importa isto! Estou aqui, a peste!
Nunca me detiveste, e assim tudo termina:
Melhor fulgir na noite a obrar na orbe celeste!”

Um passo a mais, dois, três – finda a carnificina
Cai em pleno vazio, nem som, nem voz, nem nada
Consome toda cor, breu que tudo domina
Mas somem os grilhões e começa a jornada
Em solidão, talvez; sem ordália divina.



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Terminado mais um poema. Nada fácil fazer cinquenta versos alexandrinos, ainda mais com rima. Obviamente que o resultado deixa um pouco a desejar em algumas passagens, certamente exigindo cinzeladas posteriores. Mas por ora, e pela falta de tempo, dou-me por satisfeito.


quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Alexandrinos II - Fim da Primeira Parte


I – A Punição

“Cortem as asas dele!” – ordenou o carrasco.
“As asas com as quais uma vez varou céus –
Ah! Não mais, nunca mais!” – falou tomado de asco
Que escorria da pele e enchia o ar de fel
“E joguem-no por fim, sem asas, do penhasco!”

“Não deixem pluma alguma em tão pífio réu.
Talhem todas as seis! Seis é sua medida,
Seis o seu julgamento e seis o seu laurel!
Que levará consigo até o fim da vida
E será para sempre o seu algoz cruel.”

Das seis asas privado, o sangue da ferida
Sobre seu corpo nu vertia fogo ardente.
Arrastado ele foi para sua caída
Posto à beira do abismo a contemplar ciente
A sina a si negada e assim sempre temida

“Vê, pela última vez, esta orbe reluzente
Que um dia foi teu lar, tomou teu desamparo –
Ah! Não mais, nunca mais!” – bradou a voz demente
Ao prender os grilhões sem um grande preparo:
“Teu crime a ti atado em teu curso cadente!”

“Não mais terás visão alguma do céu claro
E do brilho estelar – somente escuridão!
Suportarás em falta o anelo que lhe é caro –
Com trevas sobre ti, sem sombra de perdão,
Terás apenas dor em sofrimento raro!”

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Mais duas estrofes, algumas cinzeladas aqui e acolá, e primeira parte (temporariamente intitulada "A Punição) está terminada, por ora - até novos reparos se mostrarem necessários.
Enquanto o burilamento não se mostra evidente, vou continuando e elaborando as duas partes seguintes, das quais alguns versos já começam a se conformar.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

Alexandrinos II - Primeira parte

I – A Punição

“Cortem as asas dele!” – ordenou o carrasco.
“As asas com as quais uma vez cruzou céus –
Ah! Não mais, nunca mais!” – falou tomado de asco
Que escorria da pele e enchia o ar de fel
“E joguem-no por fim, sem asas, do penhasco!”

“Não deixem pena alguma em tão pífio réu.
Talhem todas as seis! Seis é sua medida,
Seis é seu julgamento e seis o seu laurel!
Que levará consigo até o fim da vida
E será para sempre o seu algoz cruel.”

Das seis asas privado, o sangue da ferida
Sobre seu corpo nu vertia fogo ardente.
Arrastado ele foi para sua caída
Posto à beira do abismo a contemplar ciente
A sina reservada a si e assim temida

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Bem, um novo impulso tomou conta de mim, e resolvi retomar os alexandrinos. Pensei em trabalhar com versos heróicos, mas precisava de maior espaço para dar conta do meu palavrório - e muito mais que doze sílabas, só barbarizando o poema ou retomando novamente a métrica clássica, nenhuma opção que gostaria de recorrer. Por fim, para não me manter em nenhuma forma tradicional de arranjo de estrofes e versos, resolvi que escreveria cerca de 100 versos, divididos em vinte stanzas, e estas agrupadas, por fim, em torno de seu tema central. Veremos o que poderá nascer daí.
Como o trabalho se mostra dispendioso, preferi ir publicando-o em partes, para não manter o blog entregue às traças. Aí em cima, três primeiras estrofes que comporão a primeira parte.

Para não perder o costume, e para exercitar a língua, coloco aqui a escansão do primeiro verso:
"COR - tem as A-sas DE(le!") || - _or-de-NOU o ca-RRAS(co)
Lembrando: o verso Alexandrino clássico é composto por dois hemísticos de seis pés cada. Sendo rigoroso, a cesura que separa o primeiro hemístico deve ser tônica, ou seja, terminar com a tônica na sexta sílaba, sem nenhum "excesso" silábico - uma oxítona, de preferência. Aqui, aparentemente, esta regra é ferida, mas deve-se prestar atenção: o restante, posto entre parêntesis, sofre elisão pela sílaba inicial do hemístico seguinte.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Sussurros no escuro

Por deleitosas curvas passeiam meus dedos
E encontro em alvo busto teus belos segredos
Se por demais eu subo em ousado passeio
Afago-lhe os cabelos sem qualquer rodeio

Em madeixas morenas me perco e me enredo
Tal qual onda no mar indo contra o rochedo
Sobre teu corpo amável, sedento me arqueio
Para aspirar o cheiro que emana teu seio

A minha língua dança por tua tez tépida
Doce o gosto salgado do suor que é teu
Preenche em profusão todos os meus sentidos

O contato molhado com a boca úmida
O arrebatado encontro do teu corpo e meu
Ao êxtase me levam em leves gemidos

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P.S.: Eis aí uma tentativa inicial de brincar com um soneto em sua forma clássica, tendo versos alexandrinos em sua composição. É a primeira vez que me arrisco com essa métrica, e acho que não saíram alexandrinos muito ortodoxos.